João Amado, Carnide

Muitas das minhas memórias de Lisboa, especialmente das três primeiras décadas da minha vida — anos 60, 70 e 80 — estão intimamente ligadas às carreiras de autocarros.
Foi num desses autocarros que fiz o caminho até ao meu primeiro filme, no cine-teatro Eden: Adeus, Sapata. Ficou-me a memória do filme, mas também a da fachada do cinema, de um estilo tão surpreendente para quem vinha da periferia.
Recordo ainda os impressionantes autocarros de dois andares, que ofereciam uma vista privilegiada sobre as Avenidas, com a porta aberta na traseira, permitindo aos mais audaciosos entrar e sair em andamento.
Outras memórias dessas décadas — sempre associadas a essas carreiras — remetem para o período da Revolução, com o seu posto de comando instalado na origem de uma das “minhas” linhas, ou para a introdução dos famosos autocarros laranja, em 1975, contrastando com o verde herdado de outros tempos, em pleno período revolucionário.
