MISERICÓRDIA

Fotografia comunitária dá voz e visibilidade a seniores de Lisboa

Momento da inauguração do projeto Diários de Lisboa, com a apresentação dos trabalhos realizados na UITI, em exposição na Biblioteca Camões, em Lisboa. A mostra incluiu as reproduções dos álbuns visuais, bem como os próprios álbuns originais, permitindo ao público conhecer o processo e os resultados deste projeto.
Fotografia de Pedro Nunes.

MISERICÓRDIA

Fotografia comunitária dá voz e visibilidade a seniores de Lisboa

Sair à rua com uma câmara na mão e olhar para o bairro como se fosse a primeira vez. É assim que seniores ligados à Universidade Internacional para a Terceira Idade (UITI), da Fundação Celeste e Herberto de Miranda, viveram nos últimos meses o projeto Diários de Lisboa, uma iniciativa de fotografia participativa co-financiada pelo programa BIP/ZIP da Câmara Municipal de Lisboa.

“O ato de revisitar fotografias do passado ou de observar imagens mais recentes constituiu um momento de reflexão e de redescoberta da própria história. ”

O impacto, do projeto que que vai muito para além da fotografia, segundo a própria Fundação, foi “profundo e comovente”. Mais do que aprender técnicas fotográficas, os participantes encontraram na iniciativa uma ferramenta de expressão pessoal, de escuta e de afirmação identitária, três dimensões que, com frequência, se perdem na vida quotidiana da população idosa.

Histórias de vida que ganham palco

Através da construção de “diários visuais” próprios, cada participante teve a oportunidade de dar visibilidade às suas vivências passadas e presentes. As fotografias tornaram-se um veículo de afirmação, ao capturar o quotidiano com atenção e afeto, os seniores viram as suas memórias reconhecidas como parte do património cultural da cidade.

O ato de revisitar fotografias do passado ou de observar imagens mais recentes constituiu um momento de reflexão e de redescoberta da própria história. Cada fotografia representou mais do que um simples registo visual, funcionando como um ponto de partida para a evocação de memórias, emoções e experiências que marcaram diferentes fases da vida. Este processo permitiu estabelecer uma ligação entre o passado e o presente, promovendo uma maior consciência sobre o percurso individual.

A construção de um álbum centrado no eu e nas vivências de cada participante implicou um exercício de seleção, organização e atribuição de significado às imagens escolhidas. Mais do que reunir fotografias, tratou-se de um processo de curadoria pessoal, no qual cada pessoa refletiu sobre aquilo que considerava mais representativo da sua identidade, das suas relações e dos momentos que contribuíram para a formação do seu percurso de vida.

Este trabalho favoreceu a valorização da história pessoal, permitindo reconhecer experiências, conquistas, desafios e transformações ao longo do tempo. Ao selecionar e contextualizar as imagens, os participantes foram convidados a olhar para si próprios de uma forma mais consciente, identificando elementos que reforçam o sentimento de identidade, continuidade e pertença.

Dra. Celeste Soares de Miranda e Eng.º. Herberto Manuel de Miranda, fundadores da Universidade Internacional para a Terceira Idade.

 

“A idade não anula a criatividade”

Para a Fundação Celeste e Herberto de Miranda, os Diários de Lisboa vieram confirmar uma premissa que orienta décadas de trabalho com a população sénior: envelhecer de forma ativa é continuar a reescrever, todos os dias, a própria história na própria cidade. “A idade não anula a criatividade. Pelo contrário, expande-a”, afirma a instituição.

O convite para participar no projeto partiu do MEF — Movimento de Expressão Fotográfica, entidade que desafiou a UITI a integrar esta rede como parceira. A Fundação reconhece publicamente o papel determinante da organização ao “colocar a câmara fotográfica nas mãos” dos seus alunos, concluindo que “a fotografia comunitária é, acima de tudo, um ato de cidadania e de amor ao próximo.

“Mais do que reunir fotografias, tratou-se de um processo de curadoria pessoal, no qual cada pessoa refletiu sobre aquilo que considerava mais representativo da sua identidade, das suas relações e dos momentos que contribuíram para a formação do seu percurso de vida.”