MARVILA

Entre memórias e luz: quando a fotografia devolve a voz

Teresa Vasques, animadora sociocultural no Centro de Desenvolvimento Comunitário do Bairro do Loios, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

MARVILA

Entre memórias e luz: quando a fotografia devolve a voz

Teresa Vasques, animadora sociocultural no Centro de Desenvolvimento Comunitário do Bairro do Loios, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

No coração do Bairro dos Loios, em Lisboa, está em marcha um movimento discreto, mas transformador.

Entre fotografias antigas, memórias resgatadas e experiências inéditas, um grupo de seniores, que integra o projeto “Diários de Lisboa”, redescobre não apenas imagens, mas também a própria voz. O projeto nasce na continuação dos “Diários de Marvila”, iniciados em 2019, mas rapidamente ganha uma dimensão própria, deixando de ser apenas sobre fotografia e tornando-se um espaço de encontro entre passado e presente.

Teresa Vasques, animadora sociocultural no Centro de Desenvolvimento Comunitário do Bairro do Loios, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, acompanha de perto este processo e recorda com brilho nos olhos o momento em que os participantes entraram pela primeira vez numa câmara escura. “Foi magia pura”, diz. “Ver as pessoas a trazerem os seus objetos, a irem às suas casas, a escolherem o que tinham na mala porque era importante para elas. Depois, meter o papel na água e de repente aparecer uma imagem!”

A comunidade de utentes do Centro de Dia é diversa, são 78 pessoas com idades entre os 62 e os 94 anos, com histórias distintas e diferentes níveis de autonomia. Mas há um traço comum que se destaca: a curiosidade. “São pessoas que gostam de fazer coisas diferentes”, explica Teresa. E é precisamente essa abertura que alimenta o sucesso do projeto.

“Ver as pessoas a trazerem os seus objetos, a irem às suas casas, a escolherem o que tinham na mala porque era importante para elas. Depois, meter o papel na água e de repente aparecer uma imagem!”

Mais do que aprender técnicas, os participantes são convidados a revisitar as suas próprias vidas. Fotografias guardadas há décadas voltam à luz, histórias são partilhadas em torno de uma mesa, e o bairro, já transformado pelo tempo, reaparece como cenário de emoções antigas. No exercício do “Mapa Emocional”, cada lugar torna-se um ponto de ligação entre o que foi e o que ainda se sente.

Há momentos que ficam como aquele em que numa tarde de conversa à volta da mesa, enquanto o grupo falava sobre o bairro de antigamente, as quintas que já não existem, os cheiros que ficaram só na memória, uma das utentes disse apenas três palavras. Três palavras sobre liberdade. Ninguém sabia ao certo o que carregavam e ainda estão a descobrir como fotografá-las. Ou o caso de outro dos utentes, que, com uma máquina fotográfica nas mãos, encontra uma nova forma de afirmação pessoal. Pequenos gestos que revelam algo maior: o impacto silencioso da valorização.

Os álbuns que estão a construir, costurados à mão, mesmo por quem dizia não saber costurar, são já uma prova de que o impossível tem uma curva de aprendizagem curta quando existe motivação. O que acontecerá a estes trabalhos depois do projeto terminar, são os próprios utentes que vão decidir, em conjunto. Mas Teresa é clara: “O que aqui estão a fazer, o que daqui sair, não pode cair no esquecimento.”

“Os álbuns que estão a construir, costurados à mão, mesmo por quem dizia não saber costurar, são já uma prova de que o impossível tem uma curva de aprendizagem curta quando existe motivação”

O lugar de memória de Teresa Vasques

A Praça Raúl Lino, carinhosamente chamada de “o Largo” pelos habitantes do bairro, é, para Teresa Vasques, um dos seus lugares de memória. Teresa diz que, desde que aqui chegou em 2014, este espaço passou a ocupar um lugar especial para si: “o Largo, num dia de sol, é das coisas mais maravilhosas, porque vemos a reunião das pessoas, as pessoas a convergirem para o Largo, as pessoas a conversar; é uma imagem que me ficou”. É no Largo que se fazem as festas comunitárias, a maior parte dos acontecimentos na comunidade do Bairro dos Loios tem ali lugar. “Sítios como este fazem falta, porque aqui no bairro sinto mesmo que aquele lugar é especial, é um lugar onde as pessoas se encontram, é um espaço aberto, onde se encontram pessoas de todas as idades, desde os mais pequenos a brincar aos mais velhos a conversar”, acrescenta.